Marcelo Coelho - Folha São Pualo, 28/04/2010
COMECEI depressa a ler o livro, que é curto, mas perdi a coragem de continuar. Só depois de uma pausa consegui retomá-lo. Foi escrito por José de Alencar nos anos 1867-68 e nunca mais foi republicado. Reaparece agora em edição de bolso, à venda até em bancas de jornal. E devia ser leitura obrigatória no currículo do secundário, tal a sua capacidade de sintetizar a mentalidade brasileira no que tem de mais conservador, de mais atrasado, de mais duro. Trata-se das "Cartas a Favor da Escravidão" (editora Hedra), que o célebre romancista endereçou, sob pseudônimo, ao imperador dom Pedro 2º. É sempre fácil, sem dúvida, acusar de insensibilidade e falta de lucidez um texto escrito em outra época. Mas o que mais importa é ver de que modo o livro de José de Alencar expressa hábitos de pensamento que, até hoje, fazem parte do arsenal reacionário. Veja, por exemplo, a crítica de Alencar às pressões de países como Inglaterra e França para que acabasse a escravidão por aqui. Como assim?, pergunta Alencar. Que direito têm as potências estrangeiras de interferir num assunto brasileiro? Filantropia e indignação moral são expedientes hipócritas dos europeus. De resto, não temos culpa pela escravidão. "Não fomos nós, povos americanos, que importamos o negro da África para derrubar matas e laborar a terra; mas aqueles que hoje nos lançam o apodo e o estigma por causa do trabalho escravo." Alencar continua: "O filantropo europeu, entre a fumaça do bom tabaco de Havana e da taça do excelente café do Brasil, se enleva em suas utopias humanitárias (...) Em sua teoria, a bebida aromática, a especiaria, o açúcar e o delicioso tabaco são o sangue e a medula do escravo. Não obstante, ele os saboreia". É típico. Nossa inocência está sempre fora de dúvida. Não se pode exigir de um país tão "jovem" que assuma responsabilidade pelo que faz. O fim da escravidão, diz Alencar, virá a seu tempo. Ainda é cedo para querer isso no Brasil. "A raça africana tem apenas três séculos e meio de cativeiro. Qual foi a raça europeia que fez nesse prazo curto a sua educação?" Sim, porque a escravidão educa o negro. É nessa "escola de trabalho e sofrimento" que um povo "adquire a têmpera necessária para conquistar o seu direito e usar dele". Cabe considerar também, diz Alencar, que esse processo educativo é mais lento no Brasil do que, por exemplo, no norte dos Estados Unidos. Lá, graças ao espírito industrioso dos anglo-saxões, o negro rapidamente se transformou num "operário ao qual só faltava o espírito do lucro". Mas nós, brasileiros, somos diferentes. "A raça latina é sobretudo artística (...) Outros elementos, que não o cômodo e o útil, impelem o caráter ardente dessa família do gênero humano: ela aspira sobretudo ao belo e ao ideal." Como diz a ótima introdução do historiador Tâmis Parron, deve-se fazer uma justiça a José de Alencar: ele não compactua com as teses da época sobre a inferioridade racial dos negros. O problema, como sempre, é "de educação", "despreparo". Mantenha-se, portanto, a escravidão. Aliás, de que escravidão exatamente se está falando? "Um espírito de tolerância e generosidade, próprio do caráter brasileiro, desde muito transforma sensivelmente a instituição. Pode-se afirmar que não temos já a verdadeira escravidão, porém um simples usufruto da liberdade." As relações entre senhor e escravo "adoçaram" por aqui, diz Alencar, repetindo várias vezes o verbo que faria tanto sucesso na obra de Gilberto Freyre. Seja como for, o escravismo é uma "instituição". E "as instituições dos povos são coisa santa, digna de toda veneração. Nenhum utopista, seja ele um gênio, tem o direito de profaná-las". Senhores utopistas, fiquem avisados. O que se pretende, ilusoriamente, em nome do progresso, dos direitos humanos etc., contradiz a realidade social. Transformá-la, ainda mais tão cedo, é uma insensatez. Há de preferir-se a realidade, é claro. Desde que se esteja do lado certo do chicote.
Este é um espaço reservado a todo e qualquer pensamento, opinião, posicionamento que faça refletir, agir, sentir, indignar-se, solidarizar-se além de ser usado como ferramenta para minhas atividades docentes. Não aceito postagens anônimas, ofensivas ou preconceituosas. Política, educação, comunicação, direitos humanos, sustentabilidade e comportamento são temas predominantes. twitter.com/ronaldomathias facebook/ronaldomathias ronaldo.mathias@yahoo.com.br
domingo, 16 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
Amor como Direito
Pietà
, Miguel Ângelo, 1499
Algum filósofo disse que em geral, as mães, mais que amar os filhos, amam-se nos filhos. Não precisa de muito esforço para entender a frase. O amor como extensão genuína da maternidade materializa-se no filho. Poder amar o filho é um direito que não precisou ser inventado, mas teve que ser protegido. Não é para menos. No Brasil não existem dados oficiais nacionais que apontem o número de crianças desaparecidas. A Secretaria Especial de Direitos Humanos, desde 2002, constituiu uma rede nacional de identificação e localização de crianças e adolescentes desaparecidos, com o objetivo de criar e articular serviços especializados de atendimento ao público bem como de coordenar um esforço coletivo e de âmbito nacional para busca e localização dos desaparecidos. A Associação Brasileira de Defesa de Crianças Desaparecidas (ABCD), Mães da Sé, fundada em1986, informa que existe uma média de 60 casos de desaparecimento de pessoas não registradas na capital paulista e 18mil todos os anos em São Paulo.
Se o desaparecimento pode ocorrer por causa de conflitos domésticos, motivação familiar, como aponta o site, também há casos de desaparecimentos forçados sendo que agora a questão é política. Em 2006 a Organização das Nações Unidas aprovou a Convenção Internacional para a Proteção de Pessoas contra o Desaparecimento Forçado, que o Brasil ratificou ano passado. O artigo II considera desaparecimento forçado a privação da liberdade de uma ou mais pessoas, por qualquer forma, cometida por agentes do Estado ou por pessoas ou grupos de pessoas que atuem com a autorização, com o apoio ou com a anuência do Estado, seguida da falta de informação ou da negativa de se reconhecer dita privação da liberdade ou de se informar o paradeiro da pessoa, impedindo assim o exercício dos recursos legais e das garantias processuais pertinentes.
Mais de 50 mil casos de desaparecimentos forçados ou involuntários já ocorreram desde 1980, segundo informações da própria ONU. O filme História Oficial, premiado com melhor Oscar de filme estrangeiro em 1986, do argentino Luiz Puenzo, aborda a questão com maestria sobre o drama das mães de desaparecidos políticos da Praça de Maio. O desaparecimento de um filho mergulha a mãe e toda a família num pesadelo infinito. O pleno direito deste amor deixa claro a afirmação que se tudo é incerto no mundo, o amor de mãe transforma essa angustia em esperança. Esperança de outro mundo possível e melhor.
Se o desaparecimento pode ocorrer por causa de conflitos domésticos, motivação familiar, como aponta o site, também há casos de desaparecimentos forçados sendo que agora a questão é política. Em 2006 a Organização das Nações Unidas aprovou a Convenção Internacional para a Proteção de Pessoas contra o Desaparecimento Forçado, que o Brasil ratificou ano passado. O artigo II considera desaparecimento forçado a privação da liberdade de uma ou mais pessoas, por qualquer forma, cometida por agentes do Estado ou por pessoas ou grupos de pessoas que atuem com a autorização, com o apoio ou com a anuência do Estado, seguida da falta de informação ou da negativa de se reconhecer dita privação da liberdade ou de se informar o paradeiro da pessoa, impedindo assim o exercício dos recursos legais e das garantias processuais pertinentes.
Mais de 50 mil casos de desaparecimentos forçados ou involuntários já ocorreram desde 1980, segundo informações da própria ONU. O filme História Oficial, premiado com melhor Oscar de filme estrangeiro em 1986, do argentino Luiz Puenzo, aborda a questão com maestria sobre o drama das mães de desaparecidos políticos da Praça de Maio. O desaparecimento de um filho mergulha a mãe e toda a família num pesadelo infinito. O pleno direito deste amor deixa claro a afirmação que se tudo é incerto no mundo, o amor de mãe transforma essa angustia em esperança. Esperança de outro mundo possível e melhor.
terça-feira, 4 de maio de 2010
DOC - Raça Humana
Raça Humana
Documentário revela bastidores das cotas raciais na UnBO país do orgulho da miscigenação, apregoado por Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, se deparou há alguns anos com uma questão espinhosa: a adoção de cotas raciais nas universidades. Se falar de racismo no Brasil já era tabu, falar de cotas, então, se transformou num daqueles temas sobre os quais é melhor nem iniciar conversa. A menos que estejamos em um grupo onde todos são favoráveis ou todos contrários. Aí, sim, dá para desabafar os inconformismos, de um lado e de outro
http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara/default.asp?selecao=MAT&materia=100406&velocidade=56k&nomeArquivo=tvcaraçahumana20100303-001-wm.56.wmv
Documentário revela bastidores das cotas raciais na UnBO país do orgulho da miscigenação, apregoado por Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, se deparou há alguns anos com uma questão espinhosa: a adoção de cotas raciais nas universidades. Se falar de racismo no Brasil já era tabu, falar de cotas, então, se transformou num daqueles temas sobre os quais é melhor nem iniciar conversa. A menos que estejamos em um grupo onde todos são favoráveis ou todos contrários. Aí, sim, dá para desabafar os inconformismos, de um lado e de outro
http://www.camara.gov.br/internet/tvcamara/default.asp?selecao=MAT&materia=100406&velocidade=56k&nomeArquivo=tvcaraçahumana20100303-001-wm.56.wmv
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Obama: negro por escolha
O presidente negro?! O presidente Obama criou alguma agitação no início de abril, quando, ao preencher o formulário do Censo Demográfico, no item identidade racial, escreveu “Negro, Afro-americano ou Preto.”
Apesar de ter mãe branca e de ter sido criado durante boa parte de sua vida por avós brancos, Obama optou por identificar-se exclusivamente como negro, ainda que o Censo admitisse várias respostas no quesito da identidade racial.
A escolha desapontou os que lutaram para que povos multirraciais tivessem o direito de indicar, no Censo, toda sua complexa herança racial. E confundiu os que se surpreenderam por o presidente não ter reconhecido oficialmente sua herança branca. A escolha levou a uma enxurrada de matérias políticas que confirmavam que, sim, Obama é, sim, o primeiro presidente afro-americano dos EUA.
Quando Obama preencheu seu formulário do Censo, deu mais uma lição, intensiva, embora não planejada, do que bem poderia ser um seminário sobre construção social das raças. Em apenas alguns poucos anos, décadas de formações multirraciais foram projetadas sobre ele à velocidade supersônica; mais ou menos como naqueles filmes nos quais se assiste ao crescimento de uma macieira, da semente à árvore adulta, em 30 segundos. Quando Hillary Clinton levava significativa vantagem no voto dos negros, a mídia perguntava regularmente se Obama seria “suficientemente negro” para merecer o apoio eleitoral dos afro-americanos. Quando o Reverendo Jeremiah Wright dominou as manchetes, a questão passou a ser se Obama não seria “negro demais” para merecer o apoio eleitoral dos brancos. Nos meses finais da campanha, os adversários de Obama tentaram convertê-lo em não-cidadão, além de muçulmano e terro rista.
Em menos de dois anos, um mesmo corpo fora classificado como, desde insuficientemente negro até excessivamente negro – sempre estrangeiro e estranho, de algum modo; e sempre assustador.
Mas Obama fez mais do que romper as definições-padrão de negritude: criou também uma crise definicional da branquitude.
Imagine-se, por um instante, que um jovem norte-americano tenha caído num sono à Rip Van Winkle em 1960. E que acorde de repente, em 2008, para ver que os EUA vivem eleição presidencial histórica, entre um candidato negro e um candidato branco. Ouve dizer que um candidato é Democrata, formado em Direito na Universidade de Harvard, conferencista convidado da conservadora Faculdade de Direito de Chicago. Ouve dizer também que esse candidato permanece casado com a primeira esposa, que o casal tem duas filhas que estudam em escolas ultraexclusivas. O outro candidato, católico da Igreja Irlandesa, tem uma filha adolescente, solteira e grávida.
Pergunte agora ao nosso recém-acordado norte-americano qual dos dois candidatos é negro e qual dos dois é branco. Lembre-se, ele só conta, como padrões de pensamento sobre raça e política, com o que se consideravam “idéias generalizadas na sociedade” em 1960. Naquele momento, número significativo de negros ainda se identificavam como Republicanos; formação universitária de Ivy League era signo identificatório de branquitude; e carreira militar era oportunidade que interessava mais aos negros que aos brancos. Aquele recém-acordado esperaria que só casamentos de brancos fossem estáveis; e que a imoralidade sexual seria marca do comportamento dos negros.
É altamente provável que nosso recém-acordado concluísse que Obama fosse o candidato branco; e McCain, o negro.
Ao expor todos esses traços da branquitude tradional, a candidatura de Obama abalou a ideia estabelecida do que seja “ser branco” nos EUA. De repente, ser branco já nada tem a ver com sucesso universitário, estabilidade familiar ou excelência no uso do idioma inglês. Talvez haja quem tente argumentar que as intervenções folclóricas de Sarah Palin foram tentativa desesperada para reivindicar e redefinir alguma branquitude, em termos de obsceno amor às armas, idioma inglês muito abaixo de ‘satisfatório’ ou, em outras palavras, o inverso de todos os marcadores do sucesso ‘branco’ tradicional e conservador.
Nesse sentido, a branquitude de Obama é assustadora e estranha a todos que creiam que as categorias racialistas sejam estáveis, significativas e essenciais. Os que anseiam por EUA pós-raciais esperavam que Obama transcendesse a negritude. De fato, o verdadeiro desafio que Obama traz para a ordem racialista dos EUA é que ele rompe os critérios da branquitude – porque, antes de Obama, a branquitude definira a cidadania, garantira acesso aos privilégios e ao poder para definir a história nacional dos EUA.
Em 1998, Toni Morrison escreveu que Bill Clinton seria o primeiro “presidente negro”, porque “exibe todos os tropos da negritude: filho de mãe solteira, nascido pobre, da classe trabalhadora, tocador de saxofone, comedor de comida-lixo do McDonald, um bom filho do Arkansas.” Dez anos depois, o homem que realmente se tornou o primeiro presidente negro dos EUA exibiria poucos desses tropos. Nada de Arkansas, mas o Havaí; sucesso acadêmico, cultura planetária, adepto do comer-saudável. Nesse sentido, Obama seria o candidato branco em 2008 – e muitos eleitores brancos votaram na versão Obama de branquitude, contra a versão McCain e Palin.
O que nos leva de volta à decisão de Obama, ao preencher o formulário do Censo Demográfico. Apesar de poder legitimamente se dizer branco, optou por dizer-se negro.
Como o historiador Nell Painter documenta em seu novo livro The History of White People, a identidade branca sempre foi duramente censurada e policiada, foi uma espécie de fronteira não franqueável, durante praticamente toda a história dos EUA. Os filhos de casal afro-branco podiam ser tomados legalmente como escravos nos EUA, até 1865. De 1877 até 1965, filhos de casal afro-branco eram objeto de segregação racial, em espaços públicos, escolas, moradia e emprego.
Em 1896, a Suprema Corte fixou a doutrina dos “iguais mas separados”, no julgamento de Homer Plessy, mestiço créole de New Orleans, cujos ancestrais eram só parcialmente africanos.
A autoidentificação do presidente Obama, no Censo Demográfico, foi momento de solidariedade com aqueles negros e reconhecimento de que as realidades legais e históricas da raça são definitivas. Que os EUA, sim, sofreram sob o preconceito racial; que ele, presidente, sofreu com os negros – e que, em outros tempos, teria, sim passado pelo que outros negros passaram.
Assim, em abril, Obama fez mais uma vez o que fez várias vezes ao longo da vida: abraçou a negritude, com seus sofrimentos, nenhum privilégio, história tumultuada e simbolismo atormentado. Não negou seus ancestrais brancos, mas oficial e livremente declarou que, nos EUA, para descendentes de negros, ter pai ou mãe branco jamais significou qualquer direito de acesso aos privilégios dos brancos
Apesar de ter mãe branca e de ter sido criado durante boa parte de sua vida por avós brancos, Obama optou por identificar-se exclusivamente como negro, ainda que o Censo admitisse várias respostas no quesito da identidade racial.
A escolha desapontou os que lutaram para que povos multirraciais tivessem o direito de indicar, no Censo, toda sua complexa herança racial. E confundiu os que se surpreenderam por o presidente não ter reconhecido oficialmente sua herança branca. A escolha levou a uma enxurrada de matérias políticas que confirmavam que, sim, Obama é, sim, o primeiro presidente afro-americano dos EUA.
Quando Obama preencheu seu formulário do Censo, deu mais uma lição, intensiva, embora não planejada, do que bem poderia ser um seminário sobre construção social das raças. Em apenas alguns poucos anos, décadas de formações multirraciais foram projetadas sobre ele à velocidade supersônica; mais ou menos como naqueles filmes nos quais se assiste ao crescimento de uma macieira, da semente à árvore adulta, em 30 segundos. Quando Hillary Clinton levava significativa vantagem no voto dos negros, a mídia perguntava regularmente se Obama seria “suficientemente negro” para merecer o apoio eleitoral dos afro-americanos. Quando o Reverendo Jeremiah Wright dominou as manchetes, a questão passou a ser se Obama não seria “negro demais” para merecer o apoio eleitoral dos brancos. Nos meses finais da campanha, os adversários de Obama tentaram convertê-lo em não-cidadão, além de muçulmano e terro rista.
Em menos de dois anos, um mesmo corpo fora classificado como, desde insuficientemente negro até excessivamente negro – sempre estrangeiro e estranho, de algum modo; e sempre assustador.
Mas Obama fez mais do que romper as definições-padrão de negritude: criou também uma crise definicional da branquitude.
Imagine-se, por um instante, que um jovem norte-americano tenha caído num sono à Rip Van Winkle em 1960. E que acorde de repente, em 2008, para ver que os EUA vivem eleição presidencial histórica, entre um candidato negro e um candidato branco. Ouve dizer que um candidato é Democrata, formado em Direito na Universidade de Harvard, conferencista convidado da conservadora Faculdade de Direito de Chicago. Ouve dizer também que esse candidato permanece casado com a primeira esposa, que o casal tem duas filhas que estudam em escolas ultraexclusivas. O outro candidato, católico da Igreja Irlandesa, tem uma filha adolescente, solteira e grávida.
Pergunte agora ao nosso recém-acordado norte-americano qual dos dois candidatos é negro e qual dos dois é branco. Lembre-se, ele só conta, como padrões de pensamento sobre raça e política, com o que se consideravam “idéias generalizadas na sociedade” em 1960. Naquele momento, número significativo de negros ainda se identificavam como Republicanos; formação universitária de Ivy League era signo identificatório de branquitude; e carreira militar era oportunidade que interessava mais aos negros que aos brancos. Aquele recém-acordado esperaria que só casamentos de brancos fossem estáveis; e que a imoralidade sexual seria marca do comportamento dos negros.
É altamente provável que nosso recém-acordado concluísse que Obama fosse o candidato branco; e McCain, o negro.
Ao expor todos esses traços da branquitude tradional, a candidatura de Obama abalou a ideia estabelecida do que seja “ser branco” nos EUA. De repente, ser branco já nada tem a ver com sucesso universitário, estabilidade familiar ou excelência no uso do idioma inglês. Talvez haja quem tente argumentar que as intervenções folclóricas de Sarah Palin foram tentativa desesperada para reivindicar e redefinir alguma branquitude, em termos de obsceno amor às armas, idioma inglês muito abaixo de ‘satisfatório’ ou, em outras palavras, o inverso de todos os marcadores do sucesso ‘branco’ tradicional e conservador.
Nesse sentido, a branquitude de Obama é assustadora e estranha a todos que creiam que as categorias racialistas sejam estáveis, significativas e essenciais. Os que anseiam por EUA pós-raciais esperavam que Obama transcendesse a negritude. De fato, o verdadeiro desafio que Obama traz para a ordem racialista dos EUA é que ele rompe os critérios da branquitude – porque, antes de Obama, a branquitude definira a cidadania, garantira acesso aos privilégios e ao poder para definir a história nacional dos EUA.
Em 1998, Toni Morrison escreveu que Bill Clinton seria o primeiro “presidente negro”, porque “exibe todos os tropos da negritude: filho de mãe solteira, nascido pobre, da classe trabalhadora, tocador de saxofone, comedor de comida-lixo do McDonald, um bom filho do Arkansas.” Dez anos depois, o homem que realmente se tornou o primeiro presidente negro dos EUA exibiria poucos desses tropos. Nada de Arkansas, mas o Havaí; sucesso acadêmico, cultura planetária, adepto do comer-saudável. Nesse sentido, Obama seria o candidato branco em 2008 – e muitos eleitores brancos votaram na versão Obama de branquitude, contra a versão McCain e Palin.
O que nos leva de volta à decisão de Obama, ao preencher o formulário do Censo Demográfico. Apesar de poder legitimamente se dizer branco, optou por dizer-se negro.
Como o historiador Nell Painter documenta em seu novo livro The History of White People, a identidade branca sempre foi duramente censurada e policiada, foi uma espécie de fronteira não franqueável, durante praticamente toda a história dos EUA. Os filhos de casal afro-branco podiam ser tomados legalmente como escravos nos EUA, até 1865. De 1877 até 1965, filhos de casal afro-branco eram objeto de segregação racial, em espaços públicos, escolas, moradia e emprego.
Em 1896, a Suprema Corte fixou a doutrina dos “iguais mas separados”, no julgamento de Homer Plessy, mestiço créole de New Orleans, cujos ancestrais eram só parcialmente africanos.
A autoidentificação do presidente Obama, no Censo Demográfico, foi momento de solidariedade com aqueles negros e reconhecimento de que as realidades legais e históricas da raça são definitivas. Que os EUA, sim, sofreram sob o preconceito racial; que ele, presidente, sofreu com os negros – e que, em outros tempos, teria, sim passado pelo que outros negros passaram.
Assim, em abril, Obama fez mais uma vez o que fez várias vezes ao longo da vida: abraçou a negritude, com seus sofrimentos, nenhum privilégio, história tumultuada e simbolismo atormentado. Não negou seus ancestrais brancos, mas oficial e livremente declarou que, nos EUA, para descendentes de negros, ter pai ou mãe branco jamais significou qualquer direito de acesso aos privilégios dos brancos
15/4/2010, Melissa Harris-Lacewell, The Nation (ed. impressa de 3/5/2010)http://www.thenation.com/doc/20100503/harris-lacewell
domingo, 11 de abril de 2010
Um homem catava pregos no chão. Sempre os encontrava deitados de comprido, ou de lado, ou de joelhos no chão. Nunca de ponta. Assim eles não furam mais – o homem pensava. Eles não exercem mais a função de pregar. São patrimônios inúteis da humanidade. Ganharam o privilégio do abandono. O homem passava o dia inteiro nessa função de catar pregos enferrujados. Acho que essa tarefa lhe dava algum estado. Estado de pessoas que se enfeitam a trapos. Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser. Garante a soberania de Ser mais do que Ter. Manoel de Barros
domingo, 28 de março de 2010
Educação e mídias
Há quase 100 anos estudam-se os efeitos da comunicação massiva na sociedade. Pesquisadores do campo da comunicação têm se debruçado com persistência em busca do código de ouro que esclareça qual a intensidade da interferência dos veículos massivos – Rádio, Cinema e TV – na vida dos telespectadores. Descobrir os efeitos, as influências ou saber o que fazem os receptores com o que consomem da mídia é e sempre foi a base da pesquisa comunicacional.
No entanto, foi somente a partir dos anos 80/90 que essa questão começou a ganhar mais relevo para os pesquisadores também da Educação. Não é para menos, já que basta entrar em uma sala de aula do Ensino Fundamental para perceber o forte apelo midiático no comportamento juvenil.
São roupas, colares, jargões, gestos, comentários de programas etc circulando intensamente entre uma fala e outra da moçada. A pauta tornou-se efetivamente televisiva ou mais recentemente articulada com os códigos da internet. Além disso, as tecnologias comunicacionais invadiram de tal forma a vida cotidiana que o professor que não utiliza em seu planejamento as linguagens audiovisuais corre o risco de falar às paredes.
Não foi por menos, que o a partir da década de 90 começou a ocorrer uma aproximação mais dirigida entre os campos da comunicação e o da educação. A chamada educomunicação pode ser definida como aquele conjunto de atividades voltadas para o conhecimento dos usos dos meios numa perspectiva prática de cidadania. Muitos professores ainda, por desconhecimento, desconfiam ou rejeitam não somente este campo de pesquisa como também a interface entre a mídia e a escola.
A questão da educomunicação é como usar as mídias para melhorar a comunicação na escola e na vida. Não é somente o simples uso do cinema em classe na aula de história que define essa prática. Mas sim a construção em toda a escola de uma proposta de trabalho com os meios pensando desde o uso em aula de um filme, como a própria produção de um jornal falado ou escrito, ou da criação de uma rádio escolar, de peças de vídeo etc.
Essa proposta leva em conta a produção de novos sentidos estabelecidos, organizados, articulados coletivamente entre professores e alunos num processo constante de melhoria das relações dentro e fora da escola. Quem se interessar mais pelo tema entre no site www.usp.br/nce para obter mais informações.
No entanto, foi somente a partir dos anos 80/90 que essa questão começou a ganhar mais relevo para os pesquisadores também da Educação. Não é para menos, já que basta entrar em uma sala de aula do Ensino Fundamental para perceber o forte apelo midiático no comportamento juvenil.
São roupas, colares, jargões, gestos, comentários de programas etc circulando intensamente entre uma fala e outra da moçada. A pauta tornou-se efetivamente televisiva ou mais recentemente articulada com os códigos da internet. Além disso, as tecnologias comunicacionais invadiram de tal forma a vida cotidiana que o professor que não utiliza em seu planejamento as linguagens audiovisuais corre o risco de falar às paredes.
Não foi por menos, que o a partir da década de 90 começou a ocorrer uma aproximação mais dirigida entre os campos da comunicação e o da educação. A chamada educomunicação pode ser definida como aquele conjunto de atividades voltadas para o conhecimento dos usos dos meios numa perspectiva prática de cidadania. Muitos professores ainda, por desconhecimento, desconfiam ou rejeitam não somente este campo de pesquisa como também a interface entre a mídia e a escola.
A questão da educomunicação é como usar as mídias para melhorar a comunicação na escola e na vida. Não é somente o simples uso do cinema em classe na aula de história que define essa prática. Mas sim a construção em toda a escola de uma proposta de trabalho com os meios pensando desde o uso em aula de um filme, como a própria produção de um jornal falado ou escrito, ou da criação de uma rádio escolar, de peças de vídeo etc.
Essa proposta leva em conta a produção de novos sentidos estabelecidos, organizados, articulados coletivamente entre professores e alunos num processo constante de melhoria das relações dentro e fora da escola. Quem se interessar mais pelo tema entre no site www.usp.br/nce para obter mais informações.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Entre a caridade e a fraternidade - Direitos Humanos e o cotidiano
Não foi ontem que nasceu um dos documentos mais importantes que o século 20 produziu. Falo aqui dos 60 anos de existência da Declaração Universal dos Direitos Humanos escrita logo após um dos mais tristes episódios da história humana, a 2ª Guerra Mundial. Aliás, este foi o motivo de seu nascimento: tentar colocar freios a possíveis novas barbáries cometidas pela civilização moderna. Será que podemos dizer que decorridas seis décadas a humanidade aprendeu a conviver respeitando a dignidade do outro? Será que todas aquelas tragédias – genocídio, tortura, intolerância, racismo, perseguições políticas etc – estão de fato varridas do mapa? Será que não existe alguma ameaça em curso nos dias atuais capazes de repetir como tragédia nosso infortúnio? Qual o balanço que podemos fazer ao nos aproximarmos do fim da primeira década do século 21 e neste momento em que se avizinha o período de festas? A citada Declaração diz em seu artigo 1º que “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.” Quando se lê que todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos devemos entender, ou deveríamos entender, que não apenas nascem, mas também devem viver com dignidade, todos os seres humanos. Poder educar os filhos em boas escolas, ter acesso a água potável, a segurança pública, a horas de lazer, a condições de trabalho respeitáveis, a bons hospitais públicos, não sofrer injustiças e muito mais, faz parte de nascer e viver com dignidade. Quanto ao que diz a segunda parte do artigo “dotadas de razão e consciência e devem agir umas com às outras com espírito de fraternidade” o que podemos compreender? Como no meu dia-a-dia estou agindo com espírito de fraternidade? Dizer que todos somos dotados de razão não é difícil de entender, e nem precisa de maiores explicações, porém, como sei que estou agindo fraternalmente com alguém? O que embala minha fraternidade? Como a fraternidade se encarna nas minhas ações cotidianas? Ações corriqueiras como dar esmolas a um mendigo no farol, visitar um asilo uma ou duas vezes ao ano ou fazer uma doação por telefone seriam ações fraternais? Tenho dúvidas. Não estou aqui para julgar como certo ou errado tais práticas, afinal, ajudar alguém que necessita é um gesto humano, pois somos dotados de razão e de consciência e de sensibilidade. No entanto, uma imagem que gosto muito para essas situações é aquela fábula do macaco e do peixe. Diz a fábula que após uma grande enchente um macaco observou, do alto de seu galho, que um peixe pulava insistentemente na correnteza. Apavorado e querendo muito ajudá-lo, logo se pôs a caminho e num gesto de caridade – ou de fraternidade (?) – pegou o peixe e o segurou apertadamente. Alguns minutos depois, observou que o peixe havia morrido e, com a tristeza na alma, lamentou não ter chegado antes! Não estou evidentemente comparando as necessidades dos outros com o peixe da fábula, mas estou sim comparando nossas ações com as do macaco. Às vezes somos movidos momentaneamente pelo sofrimento alheio e logo nos prontificamos a auxiliar aqueles que demonstram, segundo nosso olhar, alguma carência. Empurrados pelo espírito da caridade instantânea praticamos atos que nos confortam, já que podemos ajudar. Acredito, porém, que é possível fazer mais. O espírito da fraternidade diverge assim das práticas de caridade. A caridade olha de cima pra baixo, enquanto a fraternidade olha e deixa-se ver lado-a-lado. Por isso, quando olhamos para os fatos que ocorreram no passado e que levaram às guerras observamos que elas começaram não somente nas decisões palacianas ou nos delírios de mentes insanas. A motivação da maioria das guerras nasceu e continuam nascendo na rua da minha casa, no bairro em que moro, na empresa que trabalho e isso acontece, muitas vezes, ao lado das boas práticas de caridade. O que quero dizer com isso? Quero falar que o espírito da fraternidade que deve habitar nosso cotidiano é aquele que demonstra solidariedade sim com a exclusão, com a fome, com a dor. Esse espírito deve nos mover constantemente contra todas as formas mais horrendas, talvez até discretas, de injustiça, de intolerância, de racismo, de ódio e que aparecem disfarçados de superioridade quando muito de cumplicidade. Digo melhor, somos constantemente provocados por situações que pedem nossa indignação seja na fila do supermercado, na calçada da nossa casa, no elevador do nosso prédio. O silêncio diante de uma fala intolerante também é uma arma, e vai contra o espírito da fraternidade. Este, para ser de verdade, precisa ser permanente ao longo do ano, atento diante das injustiças e sensível diante da dor do outro. Só assim poderemos fazer nossa parte como quer o artigo primeiro da Declaração. O espírito fraterno só existe quando amparado pela indignação diante de uma injustiça.
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