domingo, 20 de dezembro de 2009

Entre a caridade e a fraternidade - Direitos Humanos e o cotidiano

Não foi ontem que nasceu um dos documentos mais importantes que o século 20 produziu. Falo aqui dos 60 anos de existência da Declaração Universal dos Direitos Humanos escrita logo após um dos mais tristes episódios da história humana, a 2ª Guerra Mundial. Aliás, este foi o motivo de seu nascimento: tentar colocar freios a possíveis novas barbáries cometidas pela civilização moderna. Será que podemos dizer que decorridas seis décadas a humanidade aprendeu a conviver respeitando a dignidade do outro? Será que todas aquelas tragédias – genocídio, tortura, intolerância, racismo, perseguições políticas etc – estão de fato varridas do mapa? Será que não existe alguma ameaça em curso nos dias atuais capazes de repetir como tragédia nosso infortúnio? Qual o balanço que podemos fazer ao nos aproximarmos do fim da primeira década do século 21 e neste momento em que se avizinha o período de festas? A citada Declaração diz em seu artigo 1º que “Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.” Quando se lê que todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos devemos entender, ou deveríamos entender, que não apenas nascem, mas também devem viver com dignidade, todos os seres humanos. Poder educar os filhos em boas escolas, ter acesso a água potável, a segurança pública, a horas de lazer, a condições de trabalho respeitáveis, a bons hospitais públicos, não sofrer injustiças e muito mais, faz parte de nascer e viver com dignidade. Quanto ao que diz a segunda parte do artigo “dotadas de razão e consciência e devem agir umas com às outras com espírito de fraternidade” o que podemos compreender? Como no meu dia-a-dia estou agindo com espírito de fraternidade? Dizer que todos somos dotados de razão não é difícil de entender, e nem precisa de maiores explicações, porém, como sei que estou agindo fraternalmente com alguém? O que embala minha fraternidade? Como a fraternidade se encarna nas minhas ações cotidianas? Ações corriqueiras como dar esmolas a um mendigo no farol, visitar um asilo uma ou duas vezes ao ano ou fazer uma doação por telefone seriam ações fraternais? Tenho dúvidas. Não estou aqui para julgar como certo ou errado tais práticas, afinal, ajudar alguém que necessita é um gesto humano, pois somos dotados de razão e de consciência e de sensibilidade. No entanto, uma imagem que gosto muito para essas situações é aquela fábula do macaco e do peixe. Diz a fábula que após uma grande enchente um macaco observou, do alto de seu galho, que um peixe pulava insistentemente na correnteza. Apavorado e querendo muito ajudá-lo, logo se pôs a caminho e num gesto de caridade – ou de fraternidade (?) – pegou o peixe e o segurou apertadamente. Alguns minutos depois, observou que o peixe havia morrido e, com a tristeza na alma, lamentou não ter chegado antes! Não estou evidentemente comparando as necessidades dos outros com o peixe da fábula, mas estou sim comparando nossas ações com as do macaco. Às vezes somos movidos momentaneamente pelo sofrimento alheio e logo nos prontificamos a auxiliar aqueles que demonstram, segundo nosso olhar, alguma carência. Empurrados pelo espírito da caridade instantânea praticamos atos que nos confortam, já que podemos ajudar. Acredito, porém, que é possível fazer mais. O espírito da fraternidade diverge assim das práticas de caridade. A caridade olha de cima pra baixo, enquanto a fraternidade olha e deixa-se ver lado-a-lado. Por isso, quando olhamos para os fatos que ocorreram no passado e que levaram às guerras observamos que elas começaram não somente nas decisões palacianas ou nos delírios de mentes insanas. A motivação da maioria das guerras nasceu e continuam nascendo na rua da minha casa, no bairro em que moro, na empresa que trabalho e isso acontece, muitas vezes, ao lado das boas práticas de caridade. O que quero dizer com isso? Quero falar que o espírito da fraternidade que deve habitar nosso cotidiano é aquele que demonstra solidariedade sim com a exclusão, com a fome, com a dor. Esse espírito deve nos mover constantemente contra todas as formas mais horrendas, talvez até discretas, de injustiça, de intolerância, de racismo, de ódio e que aparecem disfarçados de superioridade quando muito de cumplicidade. Digo melhor, somos constantemente provocados por situações que pedem nossa indignação seja na fila do supermercado, na calçada da nossa casa, no elevador do nosso prédio. O silêncio diante de uma fala intolerante também é uma arma, e vai contra o espírito da fraternidade. Este, para ser de verdade, precisa ser permanente ao longo do ano, atento diante das injustiças e sensível diante da dor do outro. Só assim poderemos fazer nossa parte como quer o artigo primeiro da Declaração. O espírito fraterno só existe quando amparado pela indignação diante de uma injustiça.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Série Estampas – Luiz Lopes
É sempre um desafio para o artista se apropriar do que não é dele. Luiz Lopes se apropria com tranqüilidade e maestria daquilo que as tecelagens jogam fora, sobras de tecido com excesso de tinta, com erros nas gravações das estamparias e manchas. Do que serviu apenas para teste na indústria, o artista decide extrair poesia e outros sentidos através de novas gravações, raspagens e sobreposições. O tecido deixa, assim, sua função utilitária para se tornar tela e panôs, objeto agora para os olhos e o pensamento.

Entre o tecido industrial e as telas de Luiz Lopes, a atividade artística se estabelece como um jogo entre a resistência física da matéria-prima e a vontade do artista em transformá-la. Lopes extrai informações invisíveis ao tecido inicial ao mesmo tempo em que as insere, fazendo com que pintura e gravação se confundam e se complementem.

A Série Estampas é assim um exercício corajoso e ao mesmo tempo raro de descobrir pela raspagem e sobreposição de signos sobre o tecido uma imagem nunca vista. Uma imagem revelada por um artista singular.
Quem se interessar em conhecer mais sobre as obras deste artista, basta entra no endereço
http://luizlopez.multiply.com/

sábado, 24 de outubro de 2009

Um outro desenvolvimento sustentável


Commodities ambientais
As "commodities ambientais" são mercadorias originadas derecursos naturais em condições sustentáveis, cujas matrizessão: água, energia, madeira, biodiversidade, reciclagem,minério e controle de emissão de poluentes (água, solo,ar), bem como as "commodities espaciais", assim entendidas, quetratarão da propriedade intelectual, das idéias, dossaberes, da cultura dos povos, das artes, da qualidade de vida,das pesquisas e de todos os valores abstratos originados dacapacidade humana individual ou grupal.
As commodities ambientais obedecem a critérios de extração, produtividade, padronização, classificação, comercialização e investimentos e têm um tratamento diferente daqueles produtos chamados, no jargão do mercado financeiro, de “commodities” (mercadorias padronizadas para compra e venda). Não são, assim, mercadorias que se encontram na prateleira dos supermercados, na lista de negócios agropecuários, nem entre os bens de consumo em geral industrializados, mas estão sempre conjugados a serviços socioambientais como o ecoturismo, turismo integrado, certificação,educação,marketing, comunicação, saúde, pesquisa, história entre outros.
No mercado de commodities ambientais, os fornecedores e produtores são a população carente, os indivíduos que podem representar, ou melhor, já representam riscos sociais. O cidadão de baixa renda que mora próximo a mananciais, o caboclo que queima a floresta nativa para ampliar sua área agriculturável convertem-se em proprietários de commodities ambientais, ou seja, figuras centrais deste mercado.
A matriz água, por exemplo, bem como as outras matrizes, podem ser tratadas como reprodutoras de commodities ambientais (moeda do meio ambiente) somente se as variáveis sociais – nível de educação, distribuição de renda, saúde, empregabilidade – dos cidadãos forem levadas em consideração e se houver a participação da sociedade na manutenção, destinação, administração e principalmente na comercialização, de acordo com leis claramente estabelecidas. Quem se interessar em saber mais, basta ler o e-book de Amyra El Khalili clicando no link abaixo.
Download gratuito do livro
http://amyra.lachatre.com.br/

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Partido Pirata

O Partido Pirata alemão conseguiu 842 mil votos nas eleições realizadas ontem, o equivalente a 2% do total de votos. No entanto, devido à cláusula de barreira de 5%, não pôde eleger membros ao parlamento alemão. Uma das dificuldades do Partido Pirata foi o fato de não estar organizado em todo país, como no Estado da Saxônia, o que tornou impossível receber votos. Apesar disso, o jovem Partido Pirata alemão tornou-se o 6 º maior partido político na Alemanha baseados em votos. O partido conseguiu crescer cerca de dez vezes desde as eleições para o Parlamento Europeu, realizada em junho deste ano e tem agora 9.500 piratas filiados, tornando-se o 7o. maior partido na Alemanha, com base no número de membros. Os destaques da campanha eleitoral foram o uso do grafite inverso, a projeção de luzes com a bandeira em edifícios, estruturas industriais e até mesmo o céu.
O Partido Pirata é um movimento que surgiu no Brasil no final de 2007 a partir da rede Internacional de Partidos Piratas, organização pela defesa ao acesso à informação, o compartilhamento do conhecimento, a transparência na gestão pública e a privacidade - direitos fundamentais que são ameaçados constantemente pelos governos e corporações para controlar e monitorar os cidadãos. Os Piratas não acreditam na "propriedade intelectual" e entendem que sua defesa no âmbito digital implica no controle dos cidadãos e na supressão dos direitos civis e liberdades individuais fundamentais.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Nova África

Conceição Oliveira/Reprodução
Meninas Macua da Ilha de Moçambique fotografadas por Conceição Oliveira
Thais Bilenky
Nesta quarta, 23, no Rio de Janeiro, a TV Brasil lança a série "Nova África", que entra na programação a partir do dia 25 de setembro, às 22h. Co-autora do projeto editorial que venceu o edital da rede pública, ao lado do jornalista Luiz Carlos Azenha, a historiadora Conceição Oliveira descreve o projeto:
- A série vai representar o continente africano sem aquele olhar folclorizado, de "continente da barbárie, o continente que não deu certo". O programa procura fugir de estereótipos.
Conceição explica que, visitando cerca de 40 países africanos, em grande parte por terra, a produção dá espaço a vozes em geral menosprezadas. "A intenção é escutar os próprios africanos de diferentes estratos sociais. Trabalhadores, mulheres, homens, escritores, políticos... Mas nós não chegamos com o discurso pronto".
A historiadora participou da captação e pré-produção dos três primeiros programas, gravados em Moçambique. Ela relata que a equipe se deparou com situações inusitadas que revelam a resistência diária da população africana.
"Um sábado de manhã, estávamos deixando a ilha de Moçambique de carro, um longo percurso. A gente demorou para ver, debaixo de um cajueiro, um monte de guris e uma professora entregando material escolar. Os meninos se assustaram, saíram correndo. Depois conhecemos a professora Diamantina. Ela dá aulas para 350 meninos, em um povoado no interior da Gambésia. A professora Diamantina faz uma diferença imensa, só tem ela", conta Conceição.
Essa história é uma das que compõem a série, que terá 26 programas, com 2 blocos de aproximadamente 13 minutos cada, em parceria com a produtora Baboon Filmes.
Outra história, continua Conceição, é a do senhor Germano. Sozinho, ele é o responsável pela produção de barcos em Queliman, no Zambézia, nas proximidades do Rio Bons Sinais. Sem energia elétrica, com ajuda do filho, ele demora quatro meses para fabricar um barco. "São muito importantes, são os únicos que fazem na região", impressiona-se Conceição.
Para a historiadora, que produz também material didático, é muito importante trazer à luz, no Brasil, essa visão, segundo Conceição, menos viciada da África. O continente foi dominado pelo impreialismo, mas o verdadeiro agente de sua história são, inegavelmente, os próprios africanos e é isso que a série pretende evocar, diz.
A equipe de produção está agora no Congo, após ter passado pela Bélgica, justamente para compreender o Congo belga. Vão na sequência para Ruanda e Burandi.
Na África do Sul, a questão central a ser tratada é a distribuição de terras depois do apartheid. "Passados quinze anos, os negros conseguiram território?", questiona a historiadora. O segundo foco no país será a imigração. Diz Conceição que há cerca de 5 milhões de africanos de países fronteiriços vivendo na África do Sul. O desemprego está próximo a 25% da população e o resultado acaba sendo a xenofobia, lamenta.
Outras questões pululam. As línguas oficias versus as locais compõem a identidade das populações e, para a autora do projeto de "Nova África", demonstram a resistência africana. Para informações complementares a equipe da série prepara um blog, em breve no ar.
Terra Magazine

http://www.youtube.com/watch?v=ChSchKkrn3Q

domingo, 13 de setembro de 2009

Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?!

"Dora Maar au Chat", Pablo Picasso
“A dominação dos homens sobre as mulheres e o direito masculino de acesso sexual regular a elas estão em questão na formulação do pacto original. O contrato social é uma história de liberdade; o contrato sexual é uma história de sujeição. O contrato original cria ambas, a liberdade e a dominação. (...) A liberdade civil não é universal – é um atributo masculino e depende do direito patriarcal”.
Com essas palavras, Carole Pateman apresenta com grande força persuasiva a obra O Contrato Sexual. Segundo a autora, o contrato sexual é a parte da história não revelada, pois toda liberdade civil é uma liberdade civil patriarcal fundada na dominação masculina sobre a feminina. Uma vez que a sociedade civil é constituída por duas esferas, apenas a esfera pública tornou-se objeto de estudo, já que a outra, a privada, não sendo encarada como politicamente relevante – como o casamento e o contrato matrimonial permaneceu escondida.
Rousseau (1712-1778), em O Contrato Social, expõe “O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo que o tenta e pode alcançar; o que ganha é a liberdade civil e a propriedade de tudo que possui”. "Seguir o impulso de alguém é escravidão, mas obedecer uma lei auto-imposta é liberdade". A liberdade, dessa forma, é um direito e um dever ao mesmo tempo. A liberdade pertence ao homem (nao a mulher, no raciocíonio de Pateman) e renunciar a ela é renunciar à própria qualidade de homem. Nesse sentido, uma de suas conhecidas idéias, a do “homem bom” ou do “bom selvagem”, que vivia no estado natural e depois corrompido pela sociedade, num certo sentido parte de uma contradição, já que a sociedade é justamente formada por esses mesmos “homens bons”. (Paul Gauggin, Nave Moe, ao lado)
Rousseau, lembra a autora, apesar de não defender a escravidão, como o fez Aristóteles, acreditava que uma esposa infiel dissolve a família e quebra todos os laços naturais. Ao dar ao homem um filho que não seja seu, ela trai a ambos: alia a perfídia à infidelidade. A pesquisa de Pateman, sobre o contrato sexual, me fez lembrar Robert Stan, em Crítica da imagem eurocêntrica, quando este aponta que os filósofos europeus tinham ideias bem antiesclarecidas. Vejamos. John Locke (1632-1704) dizia que os indígenas deveriam ser classificados como as crianças, os idiotas e os ignorantes. Já para David Hume (1711-1776) os negros eram naturalmente inferiores aos brancos. Karl Marx (1818-1883) afirmava que as sociedades pré-capitalistas viviam em uma temporalidade histórica condenada e estavam destinadas a desaparecer diante do capitalismo e Comte pensava a história humana desenvolvia em estágios universais e previsíveis. Enquanto que Immanuel Kant (1724-1804) duvidava da capacidade intelectual dos negros e George W. F. Hegel (1770-1831), que nada saiba da África, argumentava que aquele continente nos forçava a abandonar a própria categoria de universalidade “A África não faz parte da história do mundo...” Ou seja, a julgar pelo “pensamento clássico” está na hora de aprofundar uma revisão mais ampla da história oficial, principalmente Ocidental. Como finaliza Carole “Os homens que, supostamente, fazem o contrato original, são homens brancos, e seu pacto fraterno tem três aspectos: o contrato social, o contrato sexual e o contrato da escravidão, que legitima o domínio dos brancos sobre os negros”. De outro modo: Homem Público! mulher pública?
Como feiúra em virtude não é vantagem, é defeito, aconselho reler novamente os "clássicos literários" Iracema, A Escrava Isaura e A hora da estrela para não ter dúvida das mentiras que ainda nos pregam. Assim, entenderemos melhor Caetano... “Você diz a verdade, a verdade é o seu dom de iludir, como pode querer que a mulher vá viver sem mentir...”.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Democracia, exclusão e sustentabilidade

As sociedades contemporâneas encontram-se num dilema, em razão da globalização econômica e da mundialização das culturas, geradoras de um movimento que conecta o nacional ao hegemônico internacional. A democracia do capital, ou sistema de capital cracia (poder em grego), insurge-se contra qualquer fronteira que ameace a livre movimentação dos lucros. Com isso, nem os limites nacionais dos países de capitalismo hegemônico disponibilizam mecanismos de controle interno de suas democracias. Porém, vem crescendo, em discurso, a importância das práticas sustentáveis como caminho para garantia de um mundo melhor. Melhor pra quem?
A fragilidade dos limites entre nacional e mundial das sociedades contemporâneas expõe ao mundo a variedade de trocas simbólicas que constitui a cultura. O crescente número de migrações entre países revela uma legião de pessoas, atraídas pelo consumo, ofertas de emprego e promessas de liberdade "oferecidas" pelos países mais ricos economicamente. Além disso, mostra a extensão das carências, perspectivas e ambições da população pobre do mundo. O vai e vem de pessoas e a luta por um green card passa ser um problema para os Estados. Tanto os Estados não conseguem deter a entrada de imigrantes quanto outros não conseguem inibir a saída de sua população insatisfeita.
Nos países ricos, os levantes de imigração ameaçam desestabilizar, a todo o tempo, tanto a moral nacional quanto o quadro de emprego, por exemplo. Enquanto isso, os países em desenvolvimento enfrentam o problema de terem que incorporar a lógica global do sistema financeiro sem terem conseguido criar condições sociais, econômicas e políticas de participação efetiva do cidadão nos espaços coletivos, quando muito, consolidaram um capitalismo industrial.
O descompasso entre as políticas públicas econômicas, culturais e sociais das nações entre si aumentam a distância entre as nações mundiais ao recriar, constantemente, estratégias de superação dos entraves desta nova fase do capitalismo mundial. Uma vez que a globalização da força de trabalho - e, em consequência, da miséria - fragilizou os conceitos e práticas de cidadania e etnia, a transformação do cidadão em consumidor buscou igualar as diferenças existentes incrustadas nas vitrines, tornando a temática da identidade cultural uma opção de consumo e estilo.
Nesta direção, as novas configurações do Estado moderno têm propiciado, considerando as peculiaridades de cada caso, um fortalecimento de movimentos de contestação que passam pela afirmação da diferença, calcados em políticas de identidade e políticas do corpo como principal bandeira. Visto de outra maneira, o enfraquecimento do Estado moderno, se assim o considerarmos, pode ser comparado a novas estratégias de controle de uma sociedade globalizada que precisa incluir a diferença para que ela não se apresente como uma ameaça constante. Se por um lado temos que incluir os excluídos, por outro temos que promover a sustentabilidade.
Essa inclusão do outro, do diferente, tem se materializado em todas aquelas práticas assistencialistas, vestidas de políticas públicas, que promovem a curto prazo, e quem sabe a médio prazo, todas as boas ações sociais voltadas para minimizar os danos causados tanto pelo assédio do consumismo desenfreado, quanto pelo abandono, de vez, da dignidade da vida humana. Nesse sentido, o debate sobre sustentabilidade, que tem sido divulgada midiaticamente como capacidade de "suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas", torna-se de fato crucial uma vez que se quisermos minimizar os impactos das democracias contemporâneas devemos resolver eficientemente a primeira parte deste conceito, ou seja, "suprir as necessidades da geração presente", caso contrário estaremos bem distantes de compreendermos não apenas o discurso da sustentabilidade como também de criar práticas sustentáveis convicentes para aqueles que possuem, hoje, uma vida insustentável.